Kerginaldo Torquato, uma história de empreendedorismo

Do comércio de animais à carne nobre: a trajetória de um produtor que transformou conhecimento em negócio no semiárido potiguar

Por Carlos Henrique Pereira

Estudante de Jornalismo da Uern

Aos 14 anos, José Kerginaldo Torquato precisou assumir responsabilidades que normalmente cabem a um adulto. A morte do pai interrompeu a adolescência e o obrigou a deixar os estudos para cuidar da propriedade rural da família, localizada na região onde hoje está o Assentamento São Romão, na zona rural de Mossoró. A pequena área de terra enfrentava limitações típicas do semiárido. Não havia água disponível para garantir a produção durante todo o ano e as possibilidades de renda eram restritas. O futuro parecia resumido à luta diária para manter a propriedade funcionando.

Quase quatro décadas depois, o cenário é outro. Na mesma área onde começou a trabalhar ainda adolescente, Kerginaldo coordena uma agroindústria familiar especializada na produção de carnes nobres de ovinos e suínos. A propriedade possui unidade própria de beneficiamento, marca registrada, inspeção sanitária e um sistema produtivo construído para atender consumidores cada vez mais exigentes. A transformação não ocorreu por acaso nem foi resultado de um único investimento. Ela foi construída gradualmente, por meio da combinação entre experiência prática, busca por conhecimento e um longo processo de capacitação técnica que permitiu ao produtor enxergar novas possibilidades para um negócio que, durante anos, parecia incapaz de gerar renda suficiente para sustentar uma família.

Kerginaldo na sua propriedade, onde começa o processo de criação dos caprinos

A trajetória de Kerginaldo representa uma realidade comum a milhares de pequenos produtores do Nordeste. Em uma região marcada pela irregularidade das chuvas e por propriedades de pequeno porte, sobreviver da atividade rural exige mais do que tradição. Exige planejamento, gestão, conhecimento técnico e capacidade de adaptação. Foi justamente nesse processo que a atuação do Sebrae passou a fazer parte da história da família.

Kerginaldo na sua propriedade, onde começa o processo de criação dos caprinos.

“Eu não acreditava muito na possibilidade de um dia eu ter um produto legalizado, que pudesse entrar em qualquer supermercado, em qualquer restaurante. Eu não acreditava que era possível. A gente recebeu esse apoio, recebeu orientação, e fui vendo que era possível. Só não é fácil. Nunca foi fácil e acredito que nunca vai ser. Difícil, mas possível”, afirma o produtor.

A infância no campo e a responsabilidade precoce

Kerginaldo nasceu e cresceu na zona rural de Mossoró. O vínculo com o campo começou cedo. Apesar da forte ligação com a propriedade, sua infância foi marcada pelo incentivo à educação. O pai, Francisco Torquato, acreditava que o estudo poderia abrir caminhos que a vida rural da época não conseguia oferecer. Por isso, decidiu levar os nove filhos para a cidade em busca de melhores condições de ensino.

O plano familiar mudou de forma brusca quando Francisco morreu em um acidente. Com apenas 14 anos, Kerginaldo precisou assumir responsabilidades que transformaram completamente sua rotina. Como um dos filhos mais velhos, voltou para a propriedade para cuidar da área e garantir a continuidade das atividades da família.

A decisão exigiu sacrifícios. Os estudos ficaram para trás e a rotina passou a ser dominada pelo trabalho. Sem acesso à água e com uma estrutura limitada, a sobrevivência dependia da agricultura tradicional. Durante dois anos, ele tentou manter a propriedade funcionando, mas as dificuldades econômicas acabaram impondo um novo caminho.

A saída encontrada foi migrar temporariamente para Fortaleza. O período na capital cearense durou cerca de sete anos e serviu para acumular experiência, recursos e maturidade. Mesmo distante, porém, o objetivo permanecia o mesmo: retornar à terra onde nasceu.

Kerginaldo não acreditava que pudesse construir seus negócios por conta das dificuldades

 

“Passei lá uns sete anos, mas sempre com o sonho de voltar para a propriedade. Quando consegui voltar e a gente já tinha colocado água, começou realmente a minha história como produtor rural”, relembra.

O retorno coincidiu com uma nova fase da propriedade. A perfuração de um poço permitiu ampliar as possibilidades produtivas e abriu espaço para atividades que antes eram inviáveis. A família passou a investir na agricultura irrigada, especialmente na fruticultura. Mas a verdadeira paixão de Kerginaldo continuava sendo a pecuária.

Quando criar animais não era um bom negócio

Embora gostasse da criação de ovinos, Kerginaldo não conseguia enxergar viabilidade econômica na atividade. Os animais eram criados de forma convencional e vendidos como qualquer outro produto disponível no mercado. Não havia diferenciação, agregação de valor ou remuneração pela qualidade. A situação levou o produtor a buscar alternativas.

Em vez de viver da criação, passou a viver do comércio de animais. Comprava e vendia lotes de ovinos, intermediava negociações e movimentava rebanhos entre produtores. O negócio garantia renda, mas não realizava o desejo de construir uma atividade produtiva sustentável dentro da própria propriedade.

“Eu não via viabilidade na atividade de criar ovinos. O que me mantinha era comprar e vender. Sobrevivia do comércio. Criava porque gostava, mas não acreditava que dava para sustentar uma família apenas com isso.”

A percepção começou a mudar no início dos anos 2000, quando uma equipe do Sebrae chegou ao assentamento para apresentar uma proposta de consultoria técnica voltada aos produtores rurais da comunidade.

Hoje ele possui uma criação com vários animais

O primeiro contato com a assistência técnica

Até então, Kerginaldo conhecia o Sebrae apenas pela televisão. As reportagens exibidas em programas voltados para pequenos negócios pareciam distantes da realidade de quem vivia em uma pequena propriedade rural no semiárido. Quando os técnicos chegaram ao assentamento propondo um trabalho de consultoria, a iniciativa não despertou interesse da maioria dos produtores. Muitos acreditavam já possuir conhecimento suficiente para conduzir seus rebanhos. Kerginaldo decidiu participar.

“Eu pensei: vou ver se aprendo alguma coisa.”

A decisão marcou o início de uma relação que atravessaria mais de duas décadas. Logo na primeira reunião, ele fez uma pergunta que traduzia toda a sua desconfiança.

“Consegue ganhar alguma coisa criando ovelha?”

A resposta foi positiva, mas ele permaneceu cético. Afinal, já havia tentado produzir por conta própria e nunca encontrara rentabilidade. Os técnicos Felipe Barreto, zootecnista, e Faviano Moreira, médico-veterinário, iniciaram então um processo de diagnóstico da propriedade. O trabalho passou pela avaliação do tamanho da área, do potencial produtivo, da alimentação disponível, das características genéticas dos animais e das estruturas existentes. Foi o primeiro contato do produtor com conceitos de planejamento produtivo, manejo racional e gestão da atividade pecuária.

“A gente começou a conhecer as plantas da região, aprender a usar melhor o espaço, entender genética, alimentação e manejo. Rapidamente começaram a surgir soluções para coisas que eu achava impossíveis.”

 

Todo o processo de criação é baseado no conhecimento adquirido com a assistência de profissionais e a mentoria do SEBRAE

Conhecimento antes do dinheiro

Ao longo de mais de vinte anos de atividade rural, Kerginaldo formou uma convicção que repete sempre que participa de palestras ou conversas com outros produtores: conhecimento vale mais do que dinheiro quando o objetivo é construir um negócio sustentável. Segundo ele, muitos produtores associam desenvolvimento apenas ao acesso ao crédito. Embora reconheça a importância do financiamento, considera que os recursos financeiros produzem pouco resultado quando não são acompanhados de orientação adequada.

“A grande maioria responde que o mais importante é recurso financeiro. Claro que é necessário. Mas eu sempre digo que a gente precisa mais de conhecimento.”

A experiência prática reforçou essa percepção. As consultorias passaram a orientar decisões relacionadas à escolha de raças, alimentação, reprodução, genética e sanidade. A produtividade aumentou e os erros diminuíram. Mais do que apresentar tecnologias, os técnicos adaptavam as recomendações à realidade da propriedade.

“O que mais me encanta na consultoria é que o técnico não chega impondo uma solução pronta. Ele observa a realidade da propriedade, aproveita o conhecimento que o produtor já tem e mostra como aperfeiçoar aquilo.”

O impacto ultrapassou os limites da produção animal. Influenciado pela importância que passou a atribuir ao conhecimento, Kerginaldo retomou os estudos depois dos 40 anos. Concluiu etapas da educação básica, participou do Enem e chegou a ingressar em cursos superiores. Embora não tenha conseguido concluir a graduação, transformou a educação em prioridade dentro da família. Hoje, todos os filhos estudam ou já concluíram cursos superiores.

A criação de suínos também faz parte do negócio.

O aprendizado com as cabras leiteiras

Nem todas as mudanças aconteceram imediatamente. Apesar da evolução produtiva, o mercado local ainda não estava preparado para remunerar um cordeiro produzido com mais tecnologia e maior custo de produção. O resultado foi uma nova mudança de rota. A família passou a investir na caprinocultura leiteira, atividade que oferecia melhores condições de comercialização naquele momento. Durante aproximadamente oito anos, a produção de leite de cabra tornou-se o principal negócio da propriedade. O período foi marcado por uma nova sequência de consultorias e aperfeiçoamentos técnicos. Houve avanços na genética dos animais, no manejo alimentar, nos processos de ordenha e nos índices produtivos.

“Conseguimos ter uma produção extraordinária de leite. Tudo baseado em orientação técnica.”

O modelo funcionou até que a atividade começou a perder força na região. Com a redução da viabilidade econômica, surgiu a necessidade de buscar novos caminhos mais uma vez.

O retorno aos ovinos e a busca por um produto diferenciado

Quando voltou a investir nos ovinos, Kerginaldo encontrou um cenário diferente daquele que havia conhecido anos antes. O mercado regional começava a absorver produtos de maior qualidade e surgiam consumidores interessados em carnes mais padronizadas. O produtor enxergou uma oportunidade. A estratégia passou a ser produzir cordeiros cada vez mais jovens e precoces. O objetivo era entregar uma carne mais macia, mais suculenta e capaz de atender nichos de mercado dispostos a pagar mais pela qualidade.

“Nunca me conformei em fazer qualquer coisa. Sempre quis fazer uma coisa melhor.”

A produção foi reorganizada com foco na padronização. Os cordeiros passaram a ser criados em estruturas específicas, recebendo alimentação balanceada desde os primeiros dias de vida. O sistema foi desenhado para reduzir estresse, melhorar o ganho de peso e garantir qualidade uniforme aos animais destinados ao abate. A propriedade também passou a trabalhar em parceria com outros pequenos criadores da região, recebendo animais para terminação e agregando valor à produção de produtores vizinhos.

O espaço é pensado para ter toda a assistência possível ao animal e garantir a qualidade do produto.

O desafio de vender e não apenas produzir

Produzir um animal de qualidade superior resolveu apenas parte do problema. O desafio seguinte era transformar qualidade em rentabilidade. Durante anos, Kerginaldo forneceu animais para empresas e marcas já estabelecidas. Embora a atividade gerasse receita, a maior parte do valor agregado permanecia fora da propriedade. Foi nesse momento que surgiu a ideia de criar uma marca própria. A decisão exigia investimentos elevados e um processo complexo de adequação sanitária, estrutura física e regularização. O apoio técnico tornou-se novamente decisivo. Com a participação da Secretaria Municipal de Agricultura, do Serviço de Inspeção Municipal e do Sebrae, a família iniciou a construção de sua unidade de beneficiamento.

“O Sebrae começou a nos orientar na construção da unidade e na legalização da nossa marca. Foi quando a gente começou a entender como agregar valor ao produto.”

O processo culminou na criação da Torquato Carnes Nobres, marca especializada em carnes de cordeiro e suíno produzidas dentro dos padrões exigidos pela legislação sanitária. A mudança representou uma nova etapa na trajetória da propriedade. Pela primeira vez, a família não comercializava apenas animais. Passava a comercializar um produto com identidade própria.

Fracionar os cortes antes da venda foi um dos aprendizados que a consultoria do SEBRAE possibilitou.

Da propriedade rural para a agroindústria familiar

A evolução da empresa aconteceu paralelamente ao crescimento dos filhos, que passaram a assumir funções estratégicas no negócio. A filha mais velha tornou-se médica veterinária e hoje responde tecnicamente pela operação. Robson se especializou em cortes especiais e atua diretamente no processamento das carnes. O filho Rian assumiu atividades relacionadas ao manejo dos animais. A estrutura familiar tornou-se parte da estratégia de crescimento. Ao mesmo tempo em que amplia a renda da propriedade, o negócio cria oportunidades para que as novas gerações permaneçam no campo sem abrir mão da qualificação profissional.

“Todo mundo coopera. Cada um ajuda de uma forma. E todos estudam.”

A combinação entre educação, sucessão familiar e empreendedorismo transformou a propriedade em um exemplo de permanência produtiva no meio rural.

Rian, filho mais novo de Kerginaldo ajuda o pai no manejo dos animais.

Robson, filho mais velho, se especializou no corte.

Transformação que vai além da porteira

Para Franco Marinho, gestor do Sebrae, a história de Kerginaldo representa exatamente o tipo de transformação que a instituição busca estimular nas cadeias produtivas da ovinocultura, caprinocultura e suinocultura. Segundo ele, o trabalho começa com o diagnóstico da propriedade e evolui para ações de capacitação, consultoria, gestão, inovação e acesso a mercados.

“O objetivo é que o produtor deixe de atuar apenas como fornecedor de matéria-prima e passe a ocupar posições mais estratégicas na cadeia produtiva, aumentando sua rentabilidade e competitividade.”

No caso de Kerginaldo, o processo incluiu a modernização da produção, a adoção de práticas de gestão, a agregação de valor por meio da agroindustrialização e a construção de uma marca própria.

“O apoio em temas como obtenção do Serviço de Inspeção Municipal, adequação sanitária, processamento de carnes e comercialização de cortes especiais permite que produtores ampliem sua participação no mercado e obtenham melhores preços pelos produtos”, afirma Franco.

Segundo ele, os efeitos aparecem não apenas na renda das famílias, mas também na geração de empregos, no fortalecimento das economias locais e na permanência da população no meio rural.

A nora de Kerginaldo, esposa de Robson também trabalha no processo final de conservação das carnes.

Um futuro construído pelo conhecimento

Ao caminhar pelos currais onde os cordeiros são criados em sistema de confinamento, Kerginaldo costuma lembrar da pergunta que fez aos consultores mais de vinte anos atrás: seria possível viver da criação de ovinos em uma pequena propriedade do semiárido? A resposta levou décadas para ser construída.

Ela passou por erros, mudanças de atividade, investimentos, estudos, capacitações e pela disposição permanente de aprender. Passou também pela compreensão de que produzir bem é apenas uma parte do negócio e que conhecimento pode ser tão importante quanto terra, água ou crédito.Hoje, a pequena propriedade que parecia incapaz de sustentar uma família abriga uma agroindústria familiar legalizada, especializada em carnes nobres e conectada a mercados que antes pareciam inalcançáveis. A transformação não eliminou as dificuldades do campo. Mas mostrou que elas podem ser enfrentadas quando experiência, inovação e orientação técnica caminham na mesma direção.

“Não é fácil”, diz Kerginaldo. “Mas é possível.”

E é justamente nessa possibilidade que sua história encontra significado: a demonstração de que o conhecimento pode transformar uma atividade tradicional em um negócio capaz de gerar renda, oportunidades e perspectivas para as próximas gerações do semiárido.

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Saulo Vale

É formado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Uern. Pós-graduado em Assessoria e Gestão da Comunicação. É também correspondente de política de rádios da capital e do interior.

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